domingo, 26 de dezembro de 2010

Miniconto - Espuma Branca Em Mar Azul

Foto de Márcia Foletto

Eu podia jurar que estava no Largo da Carioca e que tinha acabado de descer a igreja de Santo Antonio, em que fui pedir a costumeira proteção. Mas agora, não sei ao certo... vendo as ondas lambendo, esparramando-se sobre o mar azul, talvez eu tenha adormecido e sonhado que estava naquele tumulto do Centro. Que bobagem! Estou aqui no bem-bom, curtindo o meu tranquilo Leblon, apenas ouvindo o marulhar das ondas e apreciando o céu azul.

Hoje as espumas estão mais brancas do que de costume. Deve ser bom sinal. Sinal de que o mar não está poluído, de que não foi maculado com as tradicionais línguas-negras que sempre invadem as praias da Zona Sul depois da chuva forte. E pelo que lembro, choveu forte ontem. E, pensando nisso, nem deveria ter vindo à praia hoje, pois é sabido que nunca é bom frequentar as praias depois de tempestade, pois elas ficam imundas! Mas as espumas estão tão brancas...

E já deve ser hora de ir embora. Está tão bom aqui, deitada na areia, que nem vontade de erguer o pulso para ver as horas eu tenho. Mas deve ser bem de tardezinha, pois estou começando a sentir frio e, como estamos no outono, os fins de tarde são sempre frias. E preciso mesmo me levantar, pelo menos para sair de perto da água, pois a maré está subindo. Estou começando a sentir a umidade sob mim. Ao menos, a água está quente, pois essa areia dura está tão fria que parece que logo me congelará! E há alguma coisa debaixo dos meus ombros que está me machucando! Eu devia mesmo ter adormecido, pois não havia me dado conta desse incômodo antes.

Levo a minha mão pesada até o ombro direito, onde a dor é mais forte. E a onda já está chegando até a minha cabeça, pois os meus cabelos estão molhados! Com muita dificuldade – provavelmente pela preguiça que me dominou – viro a cabeça para o meu ombro e ergo a minha mão, que agora está encharcada da água do mar. A minha vista está escurecendo, acho que vou adormecer novamente, mas antes preciso sair de perto da água, senão a próxima onda poderá me levar!

E, o que é ainda mais estranho do que adormecer na praia e sonhar com a balbúrdia do Centro do Rio, é ver que a água do mar está vermelha. Oh, céus! Eu me enganei de novo! Sabia que não deveria vir à praia depois de uma tempestade! A água está tão vermelha que deve ser por culpa daquelas algas que infestam quando há muita poluição!

Então me desespero. A água do mar está suja demais para deixar que me molhe! E a areia está dura e fria demais! E tudo está ficando muito frio e escuro! E o pior é que não consigo me mexer por causa dessa preguiça! O que me resta é pedir ajuda e é o que tento fazer, mas não tenho nem mais forças para falar!

Então, o que posso fazer é olhar suplicante para quem estiver perto e torcer para que esse alguém me entenda e me tire dessa praia. Não consigo enxergar mais nada, mas também não estou mais sentindo tanto frio e nem tanta dor. A única coisa que consigo fazer um pouco mais nitidamente é ouvir, e o que ouço é a mesma balbúrdia que há lá no Centro... que engraçado.

— Pelo amor de Deus! Onde está a maldita ambulância?! Já faz mais de quinze minutos que ela foi chamada!

— Olha quanto sangue! Ela vai morrer!

— É um absurdo isso! E ninguém viu nada! A cabine da polícia fica logo ali e ninguém viu nada!?!

— Como é que ela levou o tiro?!

— ... bala perdida!

— Aposto que veio daquele prédio dali! Minha cunhada disse que...

Que gente louca. Não pude deixar de pensar. Tiro, bala perdida, sangue, alguém morrendo... Nunca! Estamos na cidade mais maravilhosa do mundo e essas coisas são apenas sensacionalismo da mídia.

Mas, quer saber de uma coisa? Vou é dormir de novo, só mais um pouquinho. Acho que o mar não vai subir mais e menos ainda que me puxará para dentro dele. Não tenho mais dor, frio e a areia voltou a ficar confortável... na verdade, é como se eu estivesse flutuando naquele mar azul de espuma branquinha...

FIM

Como falar do Rio de Janeiro sem abordar os gravíssimos problemas socio-urbanos que temos por aqui? Eu não sei como, mas, obviamente, há muitos que sabem.
O miniconto foi escrito sob a inspiração da foto de Márcia Foletto para o concurso "Contos do Rio", do caderno "Prosa & Verso" do jornal "O Globo". Dentre 600 concorrentes, este também não ficou entre os 10 finalistas. O bom disso é que temos mais um material inédito para postar aqui no blog ;]


domingo, 19 de dezembro de 2010

Miniconto - Gaiola Dourada

Isabela não se embalava mais na cadeira-balanço que havia em seu quarto, que ficava no segundo andar da enorme propriedade vitoriana. Nem os livros, que sempre foram seus companheiros, a interessavam mais. Apenas ficava naquela cadeira pendurada no teto por uma corda, com o olhar perdido em seus sapatinhos de cetim e nos babados e rendas da saia longa e rodada.

Também havia um Canarinho que ficava preso, como um adorno, numa bela gaiola dourada próxima à sua janela. Mas, de uns tempos para cá, tal qual a sua dona, ele também não se embalava mais no poleiro. Apenas cantava uma canção tão linda quanto triste. O passarinho na gaiola canta de melancolia, para espantar a solidão e esquecer que está para sempre prisioneiro.

Mas, Isabela, não queria mais cantar como antes também fazia. Nem ir ao piano ou à harpa. Ela queria ver a Primavera, mas do seu quarto, com a janelinha tão pequena e gradeada, não dava para ver muita coisa, e só podia sentir o perfume se o vento levasse para ela.

Se ela pudesse se tornar muito pequena e criar asas, se pudesse se transformar numa fada, poderia escapar pela grade da janela. Mas isso nunca aconteceria.

Um dia, percebeu o Canarinho tão triste e calado que parecia morrer. E, num arroubo de rebelde ousadia, a mocinha pegou o passarinho, cochichou algo no ouvido dele e jogou-o pela janela. Ele voou gorjeando feliz, prometendo trazer novidades da Primavera.

FIM

Este continho tem, exatamente, 1400 caracteres, contando com os espaços, conforme fora pedido no concurso a que ele foi escrito (Gato Sabido, 2010). Apesar de haver 40 chances para ser selecionado, ele não foi :/

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Conto - Pesados Elos

Cena do filme "Nosso Lar"
Houve algumas épocas em que meu animismo (ou a mediunidade básica que é latente a todo encarnado), estava mais "desperto", geralmente durante as longas crises depressivas pelas quais já passei, então eu sofria o que se pode chamar de "ataque psíquico": pesadelos (lugares destruídos e uma escuridão opressiva que engolfava toda tentativa de se fazer luz ao acender uma fonte de luz, fosse uma vela ou lâmpada); visões de matéria bioplasmática deletéria (que muito se assemelha a um óleo negro espesso ou lodo) escorrendo de paredes e teto; espectro escuro esfarrapado, como fosse um trapo (muito parecido com os dementadores de Harry Potter - que não são apenas personagens da ficção fantasiosa, creia); pequenas pressões pelo corpo que causavam alguma dor ou queimação; e um medo, pavor, descomunal que sentia do nada, que chegava a sufocar. Bem, como tudo para mim é passivo de virar história, tudo é experiência, mesmo as más experiências são boas para serem usadas, muitas dessas doideiras que me ocorreram eu transcrevi nos contos, romances e, principalmente, nas fanfics.
O conto logo abaixo é um dos capítulos das minha fanfic Animago Mortis. O capítulo tem por nome "Pesados Elos", que tanto pode ser mesmo pesados elos (de vidas anteriores, vivências anteriores nada saudáveis e cristãs) quanto a "pesadelos", pois a situação do ataque psíquico ou espiritual se dá durante o sono do personagem. Neste conto, há escrita muitas experiências próprias, inclusive o encontro com os dois espíritos que são os pais de Nicolai. Neste caso, esse fato se remete há mais de 25 anos atrás em que eu, com apenas 8 anos, fui levada a um centro de Umbanda para uma desobsessão (meu carma é pesadíssimo, rs) e na tal sessão se manifestaram dois espíritos nas condições psicológicas como as que são retratadas no conto.

Por que todo esse blá-blá-blá? Supondo que eu seja uma pessoa realmente sã, quero mostrar que muita coisa foi experiência vivida e não apenas invenção da minha mente sórdida. Supondo, é claro, que eu seja mesmo uma pessoa mentalmente saudável...

Este conto foi adaptado para a seleção do Histórias Fantásticas 3, que, ao que mesmo lhe parece, não foi selecionado (como sabia que isso aconteceria, não me dei ao trabalho de escrever nada inédito - não merecia, de qualquer forma).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Primeira resenha para Extraneus 1

No blog Café de Ontem, Jrcazeri faz a primeira resenha da antologia Extraneus 1 - Medieval-Sci, que você poderá conferir aqui: http://cafedeontem.wordpress.com/2010/12/11/livro-da-semana-extraneus-v-1-medieval-sci-fi/

Para uma primeira aparição a um público diferente, mais exigente e amplo, até que tivemos uma excelente conotação =)

"Apostando na diversão e oportunidades oferecidas pelos temas e atingindo resultados muito interessantes estão Simone O. Marques, com Punição; Gianpaolo Celi, em A Peregrina; Gadiego Silvestrini, com A Sepultura do Juízo Final; e Rebis Kramrisch, em Demônio das Estrelas. Cada qual com seu estilo e abordagem, facilmente conquistam o interesse do leitor."

Uau! E no patamar de quens??? Vixi! Ganhei o resto do mês *-*

Muito obrigada, moço do Café ^^

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Miniconto - Vovô Coveiro


Dia 7 de dezembro minha mãe completou 65 anos de vida e no dia seguinte, 8 de dezembro, 3 anos de morte.

O conto Vovô Coveiro, que já foi publicado no antigo "Aspirações & Inspirações" e na coletânea de contos infantis "Poções, Encantos e Assombrações", foi baseado, ou melhor, transliterado de uma situação vivida por minha mãe na sua infância, lá pela década de 50 em Cornélio Procópio, interior do Paraná. O conto foi escrito, inicialmente, para um concurso de minicontos de um site de literatura de terror, mas, no fundo, ele sempre foi uma pequenina homenagem a essas duas grandes personagens que viveram em carne e osso: Terezinha e Vovô Miguel.

Vovô Coveiro


Tereza era uma loirinha de nove anos que morava com os avós em Cornélio Procópio, interior do Paraná, uma cidadezinha tão pacata que a maior diversão dos habitantes no final de semana era passear pelo cemitério arborizado.

A avó Geralda era uma portuguesa carola que se casou ainda no Brasil Imperial e ganhou alguns escravos de presente. O estimado avô Miguel era espanhol, devoto de São Cipriano e único coveiro de Cornélio Procópio. E ele era um bruxo, disso Tereza tinha certeza, pois sempre via-o recitar orações que faziam fumaças surgirem e se movimentarem pela sala iluminada por candeeiros.

E, todos os dias, a pequena atravessava a longa alameda ladeada de pinheiros murmurosos, levando o almoço do pobre avô. A alameda dava-lhe medo, por ser fria e escura, mas não o cemitério. Se vô Miguel ficava ali o dia inteiro, não poderia ser medonho. E ela gostava de passear e brincar pelos jazigos, vê-lo trabalhar nas covas e dos crânios cabeludos que ele desenterrava.

Mas, um dia, o cemitério tornou-se medonho. Vô Miguel ainda não tinha visto a tamanha maldade feita ali, mas Tereza, sim. Brincando de pular de um jazigo ao outro, a pequena deparou-se com uma cova aberta e um belo rapazinho, de pele ainda fresca, lá dentro deitado. Mas ela não reparou em sua beleza, mas sim no peito aberto em cruz e nas quatro velas negras entorno dele.

O cemitério, um lugar gostoso de brincar e passar as horas, tornou-se o palco do horror e da maldade de pessoas bastante humanas que ainda viviam com a mentalidade na idade das trevas. Foi o crime mais hediondo cometido na cidadezinha. E vô Miguel, bruxo que orava por proteção, teve que proibir a netinha de visitá-lo e trazer-lhe seu almoço.